Os vícios da linguagem jornalística chegam a ser constrangedores. Leio que a Polícia Militar vai manter a “ocupação” da favela Paraisópolis, em São Paulo, onde uma súcia botou pra quebrar ontem (ver post). “Ocupação”? Favela agora é território estrangeiro? Também se diz com a maior sem-cerimônia que os “moradores” entraram em confronto com a Polícia. Não! Bandidos partiram para o vandalismo CONTRA OS MORADORES, e a PM foi chamada para conter a turba. Foi o que se viu ontem na favela Paraisópolis; é o que se vê o tempo todo no Rio.
Parece uma questão irrelevante, implicância deste escriba, mas não é. Quando se emprega a palavra “ocupação” para designar o policiamento ostensivo e intensivo, supõe-se, quando menos, que áreas pobres da cidade formam territórios autônomos, onde vigem leis particulares, não-reconhecidas pelo estado de direito.
A cobertura de confrontos dessa natureza, prestem atenção, está sempre marcada por um “olhar” — para usar o verbo substantivado tão ao gosto dos modernos... — hostil à polícia e simpático àquilo que é entendido, no mínimo, como uma revolta dos “oprimidos” ou dos “despossuídos”. A suposição perversa, embora os próprios preconceituosos possam não se dar conta, é a de que os pobres são mais propensos ao crime. E, vejam que coisa!, isso é mentira. “Ah, Reinaldo, então como você explica a existência de criminosos?” A muitos pode parecer um absurdo, sei disto, mas se trata de uma escolha. A miséria não tem nada com isso. Ou seria forçoso supor que a abastança contribui para formar a têmpera moral com a liga da decência. Tenham paciência!
Na edição de hoje, a Folha faz o perfil sócio-econômico de Paraisópólis, uma das áreas com os piores indicadores sociais da cidade. É fato? É fato. Criam-se, pois, as condições para que a região se torne refém do crime. É uma tarefa da coletividade, por intermédio dos vários braços do estado e da sociedade civil, libertar a população do jugo dos facínoras. Mas sempre considerando que a vida criminosa é uma escolha e que a canalha tem de ser retirada do convívio com as pessoas de bem e posta na cadeia. Sem isso, ainda que se levem aparelhos públicos os mais requintados para a região, o crime continuará a ditar as ordens — e, no caso, com infra-estrutura aprimorada.
Quando a PM está em Paraisópolis, e nos limites que lhe cabe atuar, não se trata de “ocupação”, mas de integração daquela área à cidade. O confronto de ontem não se deu com os “moradores”, mas com os soldados do crime.
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