Registrado: 08/07/07 Mensagens: 1800 Localização: Vitória da Conquista, Bahia
Enviada: Qua Ago 15, 2007 7:50 pm Assunto: ACARAJÉ DE CRISTÃO? Opine
Quem nunca viu uma barraca de acarajé com mensagens bíblicas, o famoso "acarajé de Jesus"? Saibam que por trás disso esconde-se um preconceito horroroso. É o que mostra o texto do professor Gey Espinheira, da UFBa. O mesmo me deu autorização para distribuí-lo, e gostaria que fizessem o mesmo, citando a fonte. Obrigado!
Acarajé de cristão
Gey Espinheira
Uma placa bem visível em frente ao tabuleiro anuncia que o acarajé ali “é de cristão”. A mulher que os faz e vende é negra e não se representa como baiana, está, como se poderia dizer, à paisana. Está com crianças ao lado na tarde de Domingo por trás de seu tabuleiro. São evangélicos que descobriram que fazer acarajé, para além dos compromissos religiosos, é uma forma de ganhar dinheiro. Como o acarajé é uma comida-de-santo, e como o candomblé é visto por esses religiosos como “coisa do demônio”, é preciso exorcizá-lo para tomar posse desse recurso culinário de larguíssima aceitação, e cada vez mais universal, agora considerando “bolinho de feijão”, e assim destituído de todo o seu significado simbólico.
Estamos diante da usurpação de elementos culturais, da profanação do significado sagrado para fazer prevalecer a razão instrumental e, com isso, produzir um produto que antes era exclusivo da gente-de-santo. O que se observa neste caso é o detalhe de um fenômeno mais complexo que é a transformação de todos os aspectos culturais em elementos destituídos de significados, de especificidade; isto é, transformados em mercadorias que circulam como meras coisas. O candomblé para turista, por exemplo, é uma prática utilizada há bastante tempo, assim como o olhar o santo, e outros ritos afro-brasileiros que se banalizaram, executados fora de contexto cultural como um gesto de simples negociação, de prestação de serviços.
A “profanização” (o que não é a mesma coisa que profanação) segue a passos largos em todos os domínios em que traços culturais exóticos encontram receptividade de consumo ou, em sentido contrário, em que esses significados constituem obstáculos ao aproveitamento do que se quer, destituindo-o daquilo que lhe essencial, de que são exemplos, nos dois sentidos, a cultura afro-brasileira para a indústria cultural e o acarajé, agora tornado “de cristão”, para os evangélicos.
Transformados em bens de troca, portanto em mercadoria, o seu significado simbólico já não conta; assim, esses cristãos não temem em meter a mão na massa e produzir o “acarajé de cristão”, mantendo a marca do produto “acarajé”, pois ninguém que vindo a Bahia vai se contentar em comer um “bolinho de feijão” quando, de fato, está diante de um dos ícones da cultura baiana, o acarajé.
Se comer acarajé jamais foi tido como pecado para a maioria dos cristãos, mas uma tradição bem baiana herdada dos ancestrais africanos, mesmo considerando o “pecado da gula”, agora, para esses religiosos fundamentalistas é preciso destituir o significado cultural do acarajé, transformá-lo em bolo cristianizado, para que “cristãos” contemporâneos possam produzi-lo e ofertá-lo aos consumidores um acarajé que não é de santo, mas que, certamente, também não é de Jesus!
Cinismo e cabotinismo dessa gente que sem nenhum pudor se apropria da cultura dos outros, desqualificando-a, para ganhar dinheiro de “forma limpa”. O fundamentalismo cristão de certas vertentes evangélicas prega a discriminação, a intolerância e o ódio, sentimentos que se opõem à própria concepção de cristianismo, no marketing de seu purismo, de sua verdade e validade absolutas.
Recusei-me a comer o “acarajé de cristão” por considerá-lo ridículo e acintoso, e mesmo que tenha o mesmo gosto – o que não parece ser possível! – certamente provocaria uma tremenda indigestão cultural, moral e ética.
No mundo da competição desenfreada, da perda de valores e do cinismo como legitimador de condutas, o “acarajé de cristão” pode até ter algum espaço no mercado gastronômico, mas só as pessoas de alma pequena, ou sem alma alguma, comerão esse “bolo” que é vendido como se fosse sagrado por ser feito por “mãos limpas” de cristão.
A competição religiosa atinge níveis intoleráveis. Tratada como um negócio no mercado dos bens simbólicos e de salvação, as religiões de mercado se debatem, cada qual com seu estilo, para atrair clientes, consumidores de fé e de devoção. De padres e pastores espetaculosos, anunciadores de milagres, arrebatam gigantescas fortunas que são reinvestidas em meios de comunicação e conchas acústicas para a ressonância de seus discursos. Sobre a angústia e o desespero dos brasileiros, as religiões de mercado executam uma performance econômica sem igual nos demais ramos produtivos. Da privatização do Céu à do acarajé, e sempre em nome de Jesus, para ganhar dinheiro e, com isso conquistar o poder, em todos os campos.
O “acarajé cristão” é uma bomba de efeito retardado. É a transfiguração cultural e religiosa de um bem, material e simbólico, de uma tradição cultural, a afro-brasileira, transformando-o numa coisa sem significado, destituído de sua essência. Gradativa e celeremente o vetor da religiosidade fundamentalista penetra pelas brechas que a miséria, a ignorância e a alienação abrem na sociedade civilizada e ocupam espaços enormes com a intolerância religiosa, cultural e social.
Gey Espinheira – sociólogo, professor de sociologia da FFCH/UFBa., ensaísta e ficcionista. _________________ "E comecei, a sós comigo, a fazer barcos de papel com a mentira que me haviam dado." - Bernardo Soares
Caramba, a avidez desenfreada dos evangelicos não tem o menor escrúpulo.
Por aqui eu não vi isso ainda, mas com certeza logo chega.
Eu só comi duas veses e a "baiana"(se é que era mesmo) me enfiara a faca até o cabo.
2,50 um bem pequenino, pior que gostei e voltei outro dia na praça pegar outro bem "quente" pois sou doido por pimenta.
Só me falta essa... eu quero o original, de uma baiana legitima, com mão de quem fez cafuné no capeta.
Me perdoem os evangelicos, não é pessoal, mas ando de saco cheio deles, depois vou abrir um tópico explicando porque.
Só me falta essa... eu quero o original, de uma baiana legitima, com mão de quem fez cafuné no capeta.
Reginaldo vc quase me fez morrer de rir com essa!
Se pelo menos existisse o capeta, eu também estaria do lado dele!
O problema do cristianismo, é que ele é um vírus memético que só tem por objetivo infectar o hospedeiro e se alastrar enquanto não dominar uma população inteira.
O único rival dos ramos do cristianismo nesse sentido de infectar / alastrar (proselitismo) é o islamismo.
Todo infectado por um desses memeplexos, tem o comando de mental de alastrar a infecção até a morte.
Registrado: 08/07/07 Mensagens: 1800 Localização: Vitória da Conquista, Bahia
Enviada: Qui Ago 16, 2007 9:49 am Assunto:
Aqui na Bahia, especialmente em Vitória da Conquista, que é uma cidade cheia de evangélicos, esse povo inventa toda sorte de mentira para desqualificar o acarajé feito pelas praticantes do candomblé.
Inventam que as baianas originais vão até o cemitério catar ossos de "anjinho" (criança natimorta); que o pai-de-santo se masturba e joga seu sêmen na massa do acarajé; e por aí vai. Nem precisava dizer, mas digo: TUDO MENTIRA! Eles inventam isso porque não conseguem imitar o verdadeiro acarajé.
Como praticante do candomblé sei que nada disso ocorre. O acarajé (do iorubá akará, bolo, + unjé, comer, ou seja, bolinho para se comer) é uma comida votiva a Iansã.
No final do século XIX as mulheres de Iansã iam vender o quitute preferido da deusa nas praças de Salvador para conseguir o dinheiro da sobrevivência. Hoje há baianas famosíssimas, que fizeram verdadeiras fortunas com a venda de acarajé. Vale lembrar que são, infelizmente, a exceção.
Os evangélicos, de olho no dinheiro que isto dá, fizeram sua "adaptação". "Limpamos" o acarajé, que é uma comida do Diabo, dizemos que é de Jesus, atraímos nossa clientela, colocamos dizeres bíblicos e $$$. Só que, como diz o professor Gey Espinheira, é preciso desqualificar o acarajé original, rebaixá-lo. Afinal, quem, vindo à Bahia, vai deixar de comer o verdadeiro acarajé de Iansã, bem apimentado, como ela gosta? Iansã é o leopardo que come pimenta crua!
Um verdadeiro desrespeito à cultura afro-brasileira e à minha mãe Oyá Iansã ("A ligeira mãe dos nove céus"). _________________ "E comecei, a sós comigo, a fazer barcos de papel com a mentira que me haviam dado." - Bernardo Soares
Sabe, me deu uma baita tristeza, qdo li o artigo de Gey Espinheira, postado por ti...
Tristeza em saber o qto a religião atrofia a mente das pessoas, limitando-as a serem fantoches em nome de Deus!
Essa avalanche de fanatismo e preconceito é sim um grande perigo à cultura afro, por sinal, já não muito conhecida no Brasil. Somente agora é que os movimentos negros se encontram reestruturando essa parte da história, esquecida por tanto tempo.
Justamente na Bahia, berço da cultura-afro brasileira é que essas bizarrices são lançadas...
O pior é que os mesmos que julgam impiedosamente os demais, não subestimam a capacidade de ganhar dinheiro, criando subterfúgios que, certamente, arruinarão parte do trabalho, que levará anos e anos, ou seja, de trazer novamente à tona a história do nossos antepassados sem maquiagem!
Realmente, isso é um desrespeito, uma grandíssima ignorância vinda de pessoas ganaciosas e atrasadas.
Registrado: 08/07/07 Mensagens: 1800 Localização: Vitória da Conquista, Bahia
Enviada: Qui Ago 16, 2007 3:04 pm Assunto: É isso aí, Jeza
O que eu quero é causar indignação, a mesma que sinto toda vez que passo diante de uma barraca de "acarajé de Jesus".
Então, a melhor forma de protestar é recusar-se a comer este famigerado arremedo de acarajé. Não porque o candomblé seja melhor que a religião evangélica, mas sim porque nos recusamos a compactuar com toda forma de preconceito e de arrogância religiosa. _________________ "E comecei, a sós comigo, a fazer barcos de papel com a mentira que me haviam dado." - Bernardo Soares
pascoalnaib Administrador do Fórum Usuário: OffLine
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Enviada: Sex Ago 17, 2007 1:16 am Assunto:
Jerry bela análise do seu amigo....é um absurdo o que as igrejas (principalmente algumas neopentecostais) fazem para tulmutuar e desfigurar as crenças alheias....eles nem se tocam mais todas as igrejas atuais apenas mostram de forma cada vez mais exarcebada a influência do capital econômico na fé...as igrejas são iguais a empresas com atitudes enérgicas e que não medem esforços para destruir as concorrentes...ridículo!! >:-o _________________ Estamos de mudança...acessem:
http://extestemunhasdejeova.net/forum/portal.php
Registrado: 08/07/07 Mensagens: 1800 Localização: Vitória da Conquista, Bahia
Enviada: Qui Jul 17, 2008 9:36 pm Assunto:
E a polêmica do "acarajé de Jesus" continua:
Surgido no candomblé, o acarajé já é vendido também por evangélicos
Fabiana Mascarenhas
Originado nos cultos de candomblé, onde servia como uma oferenda a Iansã, rainha dos raios e dos ventos, o acarajé tem mais de 300 anos de existência. Ao longo desse período, uma série de mudanças ocorreu: a receita já não leva apenas o tradicional bolinho de feijão; a vestimenta branca, a saia rodada e a bata que caracterizam a vestimenta da baiana foram substituídas por outras roupas; e a preparação do quitute – até então restrita às mulheres – passou também a ser feita por homens.
Além disso, o acarajé deixou de ser encontrado somente no tabuleiro da baiana e, hoje, pode ser comprado em delicatessens e restaurantes. Outra transformação, esta mais recente, é a venda da iguaria por pessoas de outras religiões, além do candomblé. Os evangélicos, por exemplo, chamam a iguaria de “bolinho de Jesus”, e alguns deles se recusam a vestir o traje de baiana. Essas mudanças fazem com que o acarajé perca a identidade?
O assunto é polêmico e divide opiniões, mas, para a antropóloga Gerlaine Martini, do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB), sim. O assunto fez parte da sua tese de doutorado defendida em julho de 2007. Intitulado Baianas do Acarajé – A uniformização do típico em uma tradição culinária afro-brasileira, a autora analisou as transformações sofridas por suas formas tradicionais de venda a partir do século XX.
Além da busca pela natureza e a importância da atividade da venda de acarajé em Salvador, o trabalho tem como cerne o surgimento do chamado “acarajé de Jesus”, prática bastante recente da venda de acarajé por baianas convertidas ao protestantismo, principalmente o neopentecostal, que almejava se desvincular totalmente da tradição.
Religião – “Percebemos uma forte mudança na tradição quando adeptas do candomblé se tornam protestantes. Mesmo professando uma nova crença, desejam manter sua fonte de renda. Para isso, decidem retirar todos os signos que liguem o quitute à religião africana, como a roupa branca, o turbante e as contas no pescoço. Desfiguram o ofício ao querer que o acarajé seja visto não como uma oferenda, mas apenas como uma refeição”, explica a antropóloga brasiliense.
Para realizar o trabalho, Gerlaine Martini residiu no terreiro Ilê Odô Ogê – Pilão de Prata, localizado na Boca do Rio, e permaneceu um período no Pelourinho, onde se encontra a sede da Associação das Baianas do Acarajé e Mingau (Abam). “Também procurei visitar diversos bairros, as festas de largo e busquei inclusive os tabuleiros dos considerados evangélicos. Observei o cotidiano de venda nos pontos, desde os de menores recursos até os mais consagrados pela opinião popular”, relata.
Na opinião da antropóloga, além da venda do acarajé por pessoas de diferentes religiões, outra mudança que descaracteriza o quitute é a venda do produto fora dos tabuleiros.
“A existência do tabuleiro e o fato de ser preparado na rua são tradições que devem ser respeitadas. Isso precisa ser preservado, e deixa de ser quando o acarajé passa a ser vendido em restaurantes e delicatessens”, diz.
Para a presidente da Abam, Maria Leda Marques, o crescimento indiscriminado da venda de acarajés em Salvador, seja por estabelecimentos ou por adeptos de outras religiões, é um dos fatores que podem levar a uma possível perda de identidade.
“Há pessoas vendendo o acarajé sem nenhum compromisso com a nossa história, com a cultura, e é preciso preservá-la independentemente da religião. É preciso saber conviver com as diferenças, mas respeitando o lado cultural”, afirma.
Maria Leda critica a postura adotada por algumas vendedoras de acarajé evangélicas que chamam a iguaria de “bolinho de Jesus” e se recusam a se trajar de baiana. “Eu desconheço que, em algum momento na história, Jesus Cristo tenha comido acarajé para que eles chamem de o bolinho de Jesus. O acarajé, até hoje, é uma oferenda a Iansã, pertence e sempre pertenceu aos orixás. Não podemos e nem queremos impedir quem quer que seja de vender acarajé. O que pedimos é que respeitem a história”, exige.
Segundo ela, mesmo ao ser vendido num contexto profano, o acarajé ainda é considerado pelas baianas tradicionais uma comida sagrada. “Apesar de todas essas mudanças, para as baianas legítimas, o bolinho de feijão-fradinho frito no azeite de dendê não pode ser dissociado do candomblé. Daí a importância de se manter a receita e lutar para que essa tradição seja passada de pais para filhos”.
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