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Religiões Afro-Brasileiras (Candomblé e Umbanda)
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Jerry
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MensagemEnviada: Ter Jul 10, 2007 6:12 pm    Assunto: Religiões Afro-Brasileiras (Candomblé e Umbanda) Responder com citação

Olá a todos!
Apesar das explicações do Pierre, muito bem argumentadas, aliás, continuo achando importante dissociar (adoro esse termo... rs) religiões afro-brasileiras de satanismo, por motivos expostos no tópico citado.
Falarei hoje brevemente do candomblé. Posteriormente diferenciarei esta religião afro-brasileira da umbanda (as diferenças são muitas).
O candomblé é a adaptação no Brasil das religiões praticadas pelos povos iorubás, de culto aos Orixás, dos jejes, de culto aos Voduns (não confundir com o vodu estereotipado por Hollywood) e dos bantos, de culto aos Inkices. No candomblé adoram-se Deuses, e não espíritos, no sentido de ancestrais, ou mortos. Tais Deuses personificam uma força da natureza (como Xangô e o fogo) ou uma atividade humana (como Ogum e a metalurgia, ou Oxóssi e a caça). O culto é feito numa língua africana (sim, na África há línguas, e não só dialetos), e o iniciado recebe um novo nome africano. Busca-se agradar às divindades, que vêm em terra abençoar seus fiéis através de danças (acho isso particularmente lindo). Isto ocorre através do transe.
Acredita-se que todo ser humano só está vivo porque compartilha do axé de algum Orixá (do iorubá Ori, cabeça, + xá, guardião). Assim, eu, Jerry, estou vivo porque gasto o axé, ou força vital, proveniente de meu Orixá, Oxóssi. Devo, pois, ser-lhe grato. Tal associação entre o indivíduo e seu Orixá manifesta-se mesmo na personalidade. Então, como Oxóssi, eu, que sou seu filho, sou calado, observador, rápido e esperto. Mas não apenas isto. Os Orixás também apresentam aspectos negativos, como os deuses gregos: um filho de Oxóssi tende a ser egoísta e áspero. Nisto para mim está a grande atração do candomblé: eu, como fiel, não devo buscar seguir os passos de alguém perfeito. Isto só gera frustração. No erro caracteristicamente humano também há muito de divino. Claro que isto não justifica que eu me resigne a não melhorar. Através dos mitos dos Orixás aprendo a evitar erros e a tentar melhorar enquanto pessoa.
Acho que para começo de conversa está bem.
Quero deixar claro que não estou fazendo proselitismo. Já fiz muito isto de porta em porta, e detestei. Estou apenas tentantado esclarecer quaisquer dúvidas. Além disto, não perdi meu senso crítico. Há coisas na minha religião que critico, e nem tudo ponho em prática. Mas o candomblé é, ainda, uma maneira interessante de ver o mundo e de nele existir. Ao menos por enquanto.
Abraço a todos!
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Johannes
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MensagemEnviada: Qua Jul 11, 2007 8:47 am    Assunto: Responder com citação

Jerry, você disse que o candomblé não se refere a espíritos, mas deuses, ou forças da natureza.

Pelo que eu entendo (talves seja uma distorção feita pelo kardecismo), os orixás são falanges de espiritos.

Todos teríamos uma espécie de espirito imortal (geralmente se pega a definição do kardecismo, embora eu não considero ser a mesma definição).

Quando morremos podemos nos apresentar em forma de um Orixá.

Isso está correto, ou é uma distorção causada com o sincretismo do kardecismo? Penso que o sincretismo com o kardecismo fez o candomblé perder sua identidade. O sincretismo com o kardecismo foi mais destruidor do que com o sincretismo com o cristianismo.

Ao meu ver, o conceito do candomblé seria que tais Orixás seriam forças da natureza, que possuem certas propriedades de personalidade e quando morremos nos integramos a essas forças. Enfim, no candomblé se trata com forças da natureza que se apresentam como personalidades, e não espíritos tipo o gasparzinho ou o penadinho (como prega o kardecismo).

A minha pergunta é:

Qual o conceito do candomblé afinal?

Somos ou temos um espírito que mantém a individualidade após a morte ou após a morte somos como uma gota de agua (axé) que cai num oceano (orixá)?
Johannes
Visitante






MensagemEnviada: Qua Jul 11, 2007 9:23 am    Assunto: Responder com citação

Falando mais sobre esse assunto de "Força":

É um fato inegável que tudo que existe, tem sua origem na interação das 4 forças fundamentais e impessoais do universo (ou natureza). Gravidade, Eletromagnetismo, Força Nuclear Fraca e Força Nuclear Forte.

TUDO surge da interação dessas 4 forças, inclusive nós mesmos.

É um fato que essas forças podem adquirir uma consciência, cada um de nós é uma prova disso.

Mesmo a ciência nos esclarecendo sobre essas forças ( a gravidade é a que a gente menos conhece e a unica que ainda não conseguimos manipular), ela afirma que elas também tiveram um início.

Esse início seria o ponto de singularidade (momento antes do Big Bang), onde tais forças se tornariam uma só ou deixariam de existir, ou sabe se lá oque!

Esse conceito já era abordado pelos hindus há mais de 5000 anos atrás. Eles tem um conceito interessantíssimo chamado de BRAHMAN.

Brahman não é um deus, não é uma força e não é uma coisa. Na verdade está além de qualquer definição.

Mas eles chamam Brahman de realidade ultima, ou a verdadeira realidade.

De Brahman surge o primeiro ser consciente. Por ser o primeiro ele é um deus, e chamam esse ser de Brahma.

Esse deus vive durante muito tempo sozinho, e então surge um outro ser dele, Vishnu.

Depois surgem outros. Então Brahma se intitula o ser supremo, por que antes dele não havia nenhum ser, e todos os outros seres concordam com isso, e o adoram.

Resumindo, depois eles se organizam e começam a criar o universo físico e tudo mais...

Mas nenhum deles é Brahman. E ao mesmo tempo todos são.

Cada coisa ou ser que existe é uma manifestação de Brahman.

Mas essa diferenciação (diversas manifestações de coisas e personalidades) é uma ilusão (Maya).

Os hindus dividiram as manifestaçãoes de Brahman em duas formas:

Nirguna Brahman e Saguna Brahman.

Nirguna Brahman é tudo aquilo que existe de forma abstrata e sem atributos. É algo muito dificil de ser entendido ou explicado em uma consideração breve.

Saguna Brahman é tudo que tem uma consciência, uma personalidade.

Para os hindus nossa mente, nosso "EU" é o Atman. Mas o Atman na verdade é o próprio Brahman!

Mas devido a ilusão (maya), nós nos esquecemos disso.

O objetivo dos hindus é se libertar da ilusão, alcançando a Moksha (ou libertação da ilusão).

A Umbanda tem uma forte relação com o hinduísmo. Até a própria origem da palavra tem uma versão hindu:

Um = AUM = OM = Brahma + Vishnu + Shiva

Bandha = Laço = Ligação

Umbanda seria a ligação com a natureza dos deuses supremos, com Om a sílaba sagrada (palavra ou verbo).
Jerry
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MensagemEnviada: Qua Jul 11, 2007 9:58 am    Assunto: Responder com citação

Johannes escreveu:
Jerry, você disse que o candomblé não se refere a espíritos, mas deuses, ou forças da natureza.

Pelo que eu entendo (talves seja uma distorção feita pelo kardecismo), os orixás são falanges de espiritos.

Todos teríamos uma espécie de espirito imortal (geralmente se pega a definição do kardecismo, embora eu não considero ser a mesma definição).

Quando morremos podemos nos apresentar em forma de um Orixá.

Isso está correto, ou é uma distorção causada com o sincretismo do kardecismo? Penso que o sincretismo com o kardecismo fez o candomblé perder sua identidade. O sincretismo com o kardecismo foi mais destruidor do que com o sincretismo com o cristianismo.

Ao meu ver, o conceito do candomblé seria que tais Orixás seriam forças da natureza, que possuem certas propriedades de personalidade e quando morremos nos integramos a essas forças. Enfim, no candomblé se trata com forças da natureza que se apresentam como personalidades, e não espíritos tipo o gasparzinho ou o penadinho (como prega o kardecismo).

A minha pergunta é:

Qual o conceito do candomblé afinal?

Somos ou temos um espírito que mantém a individualidade após a morte ou após a morte somos como uma gota de agua (axé) que cai num oceano (orixá)?


Johannes
Olha só, o que você falou sobre a influência do kardecismo está correto para a Umbanda, e não para o Candomblé.
A Umbanda é geralmente definida pelos antropólogos como a religião tipicamente brasileira. Ela é uma fusão de culto aos Orixás, Kardecismo, catolicismo popular e esoterismo europeu. É na Umbanda que há hoje sincretismo entre um santo católico e um Orixá (entre Santa Bárbara e Iansã, por exemplo).
Uma casa de Umbanda sempre vai diferir de outra. Numa a influência católica pode ser maior, noutra a kardecista, e assim por diante. Já no Candomblé o modelo de culto é padronizado, desde o Rio Grande do Sul até a Bahia.
Para nós, do Candomblé, os Orixás não são espíritos não. São Deuses. Em alguns mitos alguns deles, como Xangô, já tiveram uma existência humana, mas sublimaram isto e foram promovidos à condição de divindade. Não acreditamos que algum de nós, após a morte, manifeste-se na forma de Orixá.
Enfim, um conceito de candomblé? Uma religião africana no Brasil. Um conceito de umbanda? Sincretismo entre esta mesma religião africana, kardecismo, catolicismo popular e esoterismo.
Depois continuamos.
Abraço!
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Johannes
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MensagemEnviada: Qua Jul 11, 2007 10:28 am    Assunto: Responder com citação

Realmente eu conheço mais a umbanda, e não sei diferenciar as duas religiões muito bem. Embora eu saiba que são diferentes.

Mas oque acontece com nós após a morte, na visão do candomblé?

O axé é apenas uma força sustentadora da vida ou é a nossa mente (personalidade)?

Se for apenas uma força vital, oque seria a nossa mente (o "EU")?

Se o axé for a nossa mente, voltamos para o Orixá com nossa personalidade? Isso faria o Orixá ser um conjunto de personalidade não?

Enfim , oque é a mente (consciência, personalidade) para o candomblé? E oque acontece com o "Eu" após a morte?
Jerry
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MensagemEnviada: Qua Jul 11, 2007 6:18 pm    Assunto: Responder com citação

Johannes escreveu:
Realmente eu conheço mais a umbanda, e não sei diferenciar as duas religiões muito bem. Embora eu saiba que são diferentes.

Mas oque acontece com nós após a morte, na visão do candomblé?

O axé é apenas uma força sustentadora da vida ou é a nossa mente (personalidade)?

Se for apenas uma força vital, oque seria a nossa mente (o "EU")?

Se o axé for a nossa mente, voltamos para o Orixá com nossa personalidade? Isso faria o Orixá ser um conjunto de personalidade não?

Enfim , oque é a mente (consciência, personalidade) para o candomblé? E oque acontece com o "Eu" após a morte?


Excelente pergunta!
Você deve ter percebido o significado da palavra Orixá: ori (cabeça) + xá (guardião). Assim, o Orixá é o guardião de nossa cabeça, ou personalidade. Há um ritual no candomblé que precede à iniciação: o bori (oferenda à cabeça). Neste ritual nossa cabeça, símbolo de nossa individualidade e personalidade, é reverenciada e é alimentada simbolicamente, com o oferecimento de comidas (frutas, grãos), e cânticos. Há um ditado que diz que "Se o ori (personalidade) não quer, o Orixá nada pode fazer".
Assim como Cristo disse "Vós também sois deuses" aos seus discípulos, no candomblé acredita-se que o ser humano, dotado de um ori, ou personalidade, também é uma divindade. Há o Ori Odara (personalidade bonita) e o Ori Buruku (personalidade ruim). Não podemos culpar os orixás se não temos uma boa personalidade.
Quando morremos, o axé retorna ao Orixá, e nossa personalidade parte para o Orun (o mundo espiritual, subdividido em nove partes). Acredita-se que podemos reencarnar, e para isto renovamos o pacto com os Deuses, solicitando-lhes seu axé, ou força vital, para retornarmos. Isto não precisa ser necessariamente com o mesmo orixá da vida anterior.
Em suma: o Orixá não é um conjunto de personalidades, mas a "central de energia" que alimenta de vida diversos oris, ou personalidades. Após a morte, há uma separação entre ori e o axé do Orixá. No Orum, nosso espírito, chamado de emi (sopro, vento), tem existência própria. Quando decidimos reencarnar, nos dirigimos a Ajalá, Orixá modelador de cabeças, escolhemos um novo ori, ou cabeça, ou personalidade, e com a força vital dos Orixás, retornamos ao Aiyé, ou mundo terrestre.
Abraço!
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Johannes
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MensagemEnviada: Qui Jul 12, 2007 9:24 am    Assunto: Responder com citação

Jerry Guimarães escreveu:
Johannes escreveu:
Realmente eu conheço mais a umbanda, e não sei diferenciar as duas religiões muito bem. Embora eu saiba que são diferentes.

Mas oque acontece com nós após a morte, na visão do candomblé?

O axé é apenas uma força sustentadora da vida ou é a nossa mente (personalidade)?

Se for apenas uma força vital, oque seria a nossa mente (o "EU")?

Se o axé for a nossa mente, voltamos para o Orixá com nossa personalidade? Isso faria o Orixá ser um conjunto de personalidade não?

Enfim , oque é a mente (consciência, personalidade) para o candomblé? E oque acontece com o "Eu" após a morte?


Excelente pergunta!
Você deve ter percebido o significado da palavra Orixá: ori (cabeça) + xá (guardião). Assim, o Orixá é o guardião de nossa cabeça, ou personalidade. Há um ritual no candomblé que precede à iniciação: o bori (oferenda à cabeça). Neste ritual nossa cabeça, símbolo de nossa individualidade e personalidade, é reverenciada e é alimentada simbolicamente, com o oferecimento de comidas (frutas, grãos), e cânticos. Há um ditado que diz que "Se o ori (personalidade) não quer, o Orixá nada pode fazer".
Assim como Cristo disse "Vós também sois deuses" aos seus discípulos, no candomblé acredita-se que o ser humano, dotado de um ori, ou personalidade, também é uma divindade. Há o Ori Odara (personalidade bonita) e o Ori Buruku (personalidade ruim). Não podemos culpar os orixás se não temos uma boa personalidade.
Quando morremos, o axé retorna ao Orixá, e nossa personalidade parte para o Orun (o mundo espiritual, subdividido em nove partes). Acredita-se que podemos reencarnar, e para isto renovamos o pacto com os Deuses, solicitando-lhes seu axé, ou força vital, para retornarmos. Isto não precisa ser necessariamente com o mesmo orixá da vida anterior.
Em suma: o Orixá não é um conjunto de personalidades, mas a "central de energia" que alimenta de vida diversos oris, ou personalidades. Após a morte, há uma separação entre ori e o axé do Orixá. No Orum, nosso espírito, chamado de emi (sopro, vento), tem existência própria. Quando decidimos reencarnar, nos dirigimos a Ajalá, Orixá modelador de cabeças, escolhemos um novo ori, ou cabeça, ou personalidade, e com a força vital dos Orixás, retornamos ao Aiyé, ou mundo terrestre.
Abraço!


Pelo que entendi:

Nós = Ori + Axé

Isso aí?

Pelo que eu andei lendo os Orixás são manifestações de Olodumare. O cabeça dos Orixás.
Jerry
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MensagemEnviada: Qui Jul 12, 2007 8:08 pm    Assunto: Responder com citação

Cada um de nós, cada eu = emi (espírito) + ori (local onde o emi vive, personalidade), alimentados pelo Orixá.
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Johannes
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MensagemEnviada: Seg Ago 20, 2007 8:47 am    Assunto: Responder com citação

Eu encontrei um site muito bom que fala sobre o Candomblé:

http://translenza.com.br/orixa/index.php

Tem vários conceitos e lendas do Candomblé.

Muito bom mesmo!

Gostei também do fato de que no Candomblé, assim como no budismo, não existe o conceito da reencarnação.

Vida Eterna?

Por razão lógica, se viveremos fisicamente, neste plano terreno, apenas uma vez e nossa "vida" é eterna, este período que aqui passamos é muito curto, em se comparando com a eternidade, só isto já torna óbvio nos preocuparmos com a "outra" vida, mas o raciocínio conclusivo aparecerá mais adiante, destacado sob forma grifada, após algumas considerações necessárias.

Evidentemente para quem crê nesta "outra" vida.

Porque creio na outra vida e não na reencarnação?

Primeiro não li ou ouvi nada a respeito na filosofia Yorubana, o que me faz raciocinar, e raciocinando me leva a perceber que não temos nenhuma prova ou indicação de reencarnação, salvo exceções, que toda regra se submete, no caso em tela, os àbiku, assunto ainda sob-júdice em minha cabeça.

Existe uma teoria, anterior a ciência da genética atual, que as pessoas, locais ou situações que existem em nossa memória e que temos a certeza que nunca vimos ou passamos, acessadas mais comumentes em nossos sonhos, seriam de "encarnações" anteriores, mas que atualmente, estou mais propício a crer de se trata de uma herança genética, que herdamos dos nossos antepassados, assim como traços físicos, genes, etc.

seriam traços de memória anexados em nossos genes de memória, razão de "visualizarmos" rostos ou locais nunca vistos, pois a possibilidade de os criarmos de forma instantânea é zero.


Eu já gostava do Candomblé, agora com essa mais ainda.

Me admiro do Candomblé não ter sido infectado pelos conceitos desconexos do espiritismo.
Jerry
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MensagemEnviada: Seg Ago 20, 2007 2:15 pm    Assunto: Responder com citação

Johannes,
Olha só, isto aí é um conceito aparentemente muito pessoal de um praticante do candomblé.
Segundo Pierre Verger, entre os iorubás na Nigéria e no Benin, acredita-se que a pessoa, após sua morte, pode renascer fisicamente, mas apenas naquela família de onde ele partiu. Assim, o retorno ao Aiê é condicionado à ancestralidade.
No candomblé praticado no Brasil, como já te disse anteriormente, não há muita preocupação com uma vida anterior ou posterior a esta. Celebra-se esta vida, embora se saiba que a morte não é necessariamente o fim.
Conceitos kardecistas são estranhos ao candomblé. A umbanda é que se deixou influenciar - e muito! - pelo espiritismo.
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MensagemEnviada: Seg Ago 20, 2007 2:20 pm    Assunto: Responder com citação

E olha, cuidado com informações em sites. Eu dei uma olhada neste que você indicou, e ele traz, de fato, muita coisa verídica. Mas outras são idiossincrasias do autor. Percepções muito particulares dele do candomblé.
O negócio mesmo de preencher um formulário para saber qual seu orixá pessoal. Isso não existe! Apenas o jogo de búzios, efetuado por um sacerdote (ou sacerdotisa) com mais de 7 anos de iniciado é que pode determinar o orixá de alguém. Esse negócio de dar orixá por signo, ou por formulário, como é o caso do site, me cheira a picaretagem.
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Digger
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MensagemEnviada: Qui Fev 21, 2008 2:42 pm    Assunto: Responder com citação

Olá Jerry! Li tudo até agora e aprendi muito sobre sua religião. Percebi que muita informação que eu tinha não era verdade.

Mas como Testemunha de Jeová, gostaria muito de te fazer algumas perguntas:

Então não é verdade que os membros de sua religião são "moletados" e "sofrem" nas mãos dos Demônios?

O que um "Demônio" é para uma Testemunha de Jeová, seria o q para um praticante do Candomblé?

O que me diz dos relatos de ex-membros de sua religião (e de outras religiões afro-brasileiras) que se tornaram Testemunhas de Jeová e foram "perturbadas" por "espíritos iníquos"?

Obrigado!
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Jerry
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MensagemEnviada: Qui Fev 21, 2008 9:12 pm    Assunto: Responder com citação

Digger escreveu:
Olá Jerry! Li tudo até agora e aprendi muito sobre sua religião. Percebi que muita informação que eu tinha não era verdade.

Mas como Testemunha de Jeová, gostaria muito de te fazer algumas perguntas:

Então não é verdade que os membros de sua religião são "moletados" e "sofrem" nas mãos dos Demônios?

O que um "Demônio" é para uma Testemunha de Jeová, seria o q para um praticante do Candomblé?


Olá, Digger!

Olha só, o candomblé, conforme já expliquei, é a adaptação no Brasil do culto aos Orixás, praticado pelo povo iorubá para cá trazido no final do século XVIII e na primeira metade do século XIX.

Não apenas para os iorubás, mas para nenhum povo africano - e olha que são centenas - para nenhum povo africano existe a figura do Diabo, ou do Demônio, tal como representado pelos cristãos. E quem fala isso não sou eu, mas teóricos como Câmara Cascudo, Alberto da Costa e Silva ou Reginaldo Prandi, por exemplo.

O "demônio", para uma tj, é um dos anjos seguidores de Satanás. Como cristãos que são, as tj's dividem o mundo em duas partes opostas: a religião "verdadeira" e o resto, ou seja, todas as religiões tidas como "falsas". Nesse sentido, todas as religiões, para as tj's, estão sob o poder do iníquo. Com o candomblé não seria diferente. Como nesta religião ocorre o transe com forças da natureza, tidas como deuses, tais manifestações são atribuídas a possessões demoníacas.

Diferentemente do que ocorre com zoroastrianos, judeus, cristãos e muçulmanos, os praticantes do candomblé, assim como ocorria na religião grega antiga, não dividem o mundo em bem e mal absolutos e opostos. Não. Para nós, candomblecistas, e para várias outras religiões não cristãs, tudo é bom e mau ao mesmo tempo. Depende da relação que estabeleço com as coisas.

Vou te dar um exemplo. O rio, por exemplo, é bom ou mau? As duas coisas! Ele é bom porque me fornece água para beber e cozinhar, peixe para matar minha fome, posso utilizá-lo como transporte ou como fonte de energia elétrica. Beleza. Mas este mesmo rio pode inundar plantações e casas; pode matar alguém afogado. Neste sentido, ele é mau. Na verdade, é a relação que estabeleço com o rio que fará com que ele se mostre melhor ou pior. Oxum é a deusa dos rios para nós, candomblecistas. Ela é boa ou má? Ambas as coisas! Assim como o rio pode mostrar ser benéfico ou maléfico, Oxum, que é a sua personificação, pode ser benfazeja ou malfazeja para comigo. Eu é quem tenho de agradá-la para que ela mostre apenas seu lado benéfico, e aplaque seu lado irascível.

Se você prestar bastante atenção, o Jeová do Antigo Testamento não é bem absoluto. Às vezes ele se mostra mal, seja para com seu povo, seja para com outros povos. Se ele não fosse agradado corretamente, poderia irar-se e destruir as pessoas. Veja o caso dos filhos de Arão, que por causa de incensos trocados foram fulminados por Jeová!

Mas, voltando ao candomblé. Os orixás molestariam as pessoas? Não necessariamente. Acreditamos que alguns seres humanos são escolhidos para serem iniciados no culto de determinado orixá. Como saber quem foi escolhido? O transe é uma das maneiras. O orixá começa a manifestar-se no corpo de seu filho eleito. Geralmente o transe é precedido por tonteiras, náuseas, taquicardia, os sintomas diferem de pessoa para pessoa. Quando descobre que tem de iniciar-se, e se recusa, o orixá faz aquilo que Jeová fazia com os judeus que se recusavam a cultuá-lo: retiram o seu favor. Deixam de trazer bênçãos sobre ele. A pessoa pode, por exemplo, perder uma excelente chance de conseguir emprego. Quando a pessoa inicia-se no culto do orixá por quem foi escolhida, pelo contrário, começa a ser abençoada por ele. E se o abandona, o orixá também abandona seu filho, e o deixa por sua conta. Está então a pessoa amaldiçoada? Não! Mas também perde o apoio e a proteção de seu orixá, que o esquece, já que também foi esquecido. A lógica é essa.

Digger escreveu:
O que me diz dos relatos de ex-membros de sua religião (e de outras religiões afro-brasileiras) que se tornaram Testemunhas de Jeová e foram "perturbadas" por "espíritos iníquos"?Obrigado!


Creio já ter respondido esta pergunta mais acima. Veja só, se a pessoa abandonou o seu orixá, também é abandonada por ele. Segundo a cosmovisão iorubá, o novo deus que a pessoa adotou deve ser competente o suficiente para proteger seu novo adepto. Os orixás apenas esquecem-se de quem deles se esqueceram. Mas a perspectiva cristã vai dizer que tudo o que der errado na vida de um ex-candomblecista é por conta do Diabo, já que identificam tudo o que não está de acordo com sua visão com um mal absoluto. O engraçado é que quando algo dá errado na vida de um cristão, diz-se que é provação. Mas quando ocorre na vida de um candomblecista, diz-se que é obra de demônios. Será que isso é justo?
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Editado pela última vez por Jerry em Sex Fev 22, 2008 9:31 am; num total de 3 vezes
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MensagemEnviada: Qui Fev 21, 2008 9:13 pm    Assunto: Responder com citação

Jerry vou te passar um site do sociólogo Reginaldo Prandi que se especializpu na cultura afro...acho que vai ser muito interessante o que ele pesquisa para vc.

Esse é o livro que te falei sobre os orixás..tá lá uma resenha e capítulos no site dele vê e me diz o que achou! Wink



Ia esquecendo...o site é esse:
http://www.fflch.usp.br/sociologia/prandi/


Digger acho que vai servir tb para vc tirar algumas dúvidas! Wink
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Jerry
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MensagemEnviada: Qui Fev 21, 2008 9:15 pm    Assunto: Responder com citação

Eu tenho esse livro, e vários outros do Reginaldo Prandi, Pascoal. Lembrando que nessa obra o autor coletou centenas de mitos dos orixás e voduns cultuados na Nigéria, no Benim, no Brasil e em ilhas do Caribe.

Vale muito a pena quem tiver interesse visitar a página do Dr. Prandi, onde ele disponibiliza artigos, textos e até mesmo um livro inteiro que trata do candomblé. Tudo com um minimo de isenção acadêmica e sem passionalidades.
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