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A Dor de Schopenhauer


 
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MensagemEnviada: Seg Mai 05, 2008 3:34 pm    Assunto: A Dor de Schopenhauer Responder com citação

“Na infância, nos situamos frente ao futuro de nossa vida, tal qual as crianças frente à cortina do teatro, na alegre e tensa expectativa das coisas que virão. É uma sorte não sabermos o que efetivamente virá, pois para quem sabe poderá, às vezes, parecer que as crianças são delinqüentes inocentes condenadas não à morte, mas à vida, às quais não ouviram o conteúdo de sua condenação.”
- Arthur Schopenhauer

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Todo o ser humano nasce apto a desenvolver a mais séria e destrutiva patologia conhecida, a dor. Já dizia Goethe que não há mal pior que aquele que atinge a mente e destrói aos poucos o corpo. Nas últimas instâncias, não há mais cura para ela, só há a morte.
O mundo está repleto de sofrimento, e tal sofrimento é a regra que rege a vida de todos os seres humanos. É inegável que a receptividade que o homem tem à dor e o impacto que ela causa sobre este são incomparavelmente maiores que sua receptividade à alegria e o impacto desta sobre o homem. Tudo que é fruto de nossa vontade, e assim se realiza, não tem dimensões importantes perto de determinados pontos que nos contrariam. A tais pontos que vivemos dando atenção e é inevitável que isto aconteça. Assim como, se tenho água para beber, mas não tenho alimentos para me manter, a água perde toda sua importância. O sofrimento é sempre o que saltará sobre os nossos olhos e atordoará nossos corações.
Ao mesmo tempo em que o homem vive sua vida perseguido pela dor e tenta constantemente se ver livre desta, o homem necessita do sofrimento para sobreviver. O ser humano sonha e imagina seu futuro e é ao imaginar-se que cria suas metas. É inevitável que, ao sonhar, o homem crie sonhos que não possam ser realizados, causando cada vez mais frustrações. E é também inevitável sonhar, pois nós sabemos que existe um futuro que nos aguarda.
Todos os prazeres da vida humana são na verdade relacionados a necessidades básicas como alimentação e reprodução. Ao contrário dos animais, que se satisfazem com o cumprimento simples de tais necessidades, o homem busca sempre prazer ampliando suas necessidades, seja pelo luxo, seja pelo amor. À medida que ele alcança tais objetivos, ele os amplia novamente para obter mais prazer, até o ponto onde eles não podem mais ser alcançados, gerando frustração e sofrimento. Tal trabalho do homem, de ampliar suas felicidades, constitui-se da luta contra o tédio e da origem de todo o sofrimento do mundo.
É a esperança a maior inimiga do homem, tal que, se ela não existisse, o homem não teria capacidade de sonhar e se contentaria com a satisfação mais simples de suas necessidades. Se não houvesse esperança o apaixonado não perseguiria a paixão impossível e viveria feliz com as mulheres que estão ao seu alcance. Mas, como não podemos deixar de vislumbrar o futuro e viver como os animais, que só vivenciam o presente, a esperança também é um fardo inseparável do ser humano.
Este é o grande martírio do romântico. O romântico é o idealizador esperançoso, que aguarda sempre o máximo de perfeição para satisfazer suas necessidades. A esperança de ter tudo é o que o leva a ter nada senão o sofrimento. Tal indivíduo se encontra perdido em um mar de pessoas que desistiram de sonhar, pessoas cujas necessidades são atendidas com simplicidade e com consistência e que, assim, não utilizam sua esperança para jogar suas satisfações para um plano posterior indefectível.
Este é o problema da sociedade de primeiro-mundo contemporânea. Lá não há desesperança, tudo é esperança. Lá não há problemas como alimentação ou saúde, lá há apenas o vital problema da reprodução. É preciso ressaltar que tal necessidade é a mais idealizada pelo homem, que, por muitas vezes, acredita que sua realização se dá apenas perante uma situação e indivíduo especiais, que se dá somente perante o amor. Que tal necessidade não afeta outra parte do nosso corpo senão a mente. Seria justo dizer que lá o amor é o grande mal, e não só lá, mas para todos aqueles no mundo que dispõe de um nível de vida superior. Podemos observar que em países da Europa Setentrional, a taxa de suicídio é assustadora, justamente por isso, pois há muita esperança e esperança focada em um tema destruidor, o amor. E se não há preocupação com o amor, há tédio não há sonhos e, assim, não há sentido algum para a vida.
Aqueles que sonham menos são menos tristes e seria errado dizer que são menos felizes. Tudo que tal indivíduo precisa tem, mas com menos luxo e com menos idealização. A esperança e o sonho são partes da ambição humana que nos torna infelizes.
O que resta dizer disto senão que estamos condenados a buscar felicidades impossíveis, nos frustrar e vivenciar assim a dor em sua plenitude? O que nos resta dizer senão que a pior situação que se pode imaginar é ser homem no mundo? O que nos resta dizer senão que transmitimos este fardo de dor de maneira egoísta para nossos descendestes sofrerem tudo outra vez? O que nos resta dizer senão que a humanidade é a mais terrível anomalia de todo o universo? O que nos resta dizer senão que o mundo está repleto de sofrimento e não há nada que se possa fazer para isso? O que se pode fazer é apenas amenizá-lo e a única forma de fazê-lo é diminuindo as esperanças, é tornando-se menos romântico, é tornando-se frio. Pois é visto que a esperança é a fonte de todo o sofrimento. O que se pode fazer é admitir que só há vida com dor.

Matheus Mazzilli

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“Isto é Samsara, o mundo do prazer e do desejo, e, por conseguinte, do nascimento, da doença, do envelhecimento e da morte: é o mundo que não deveria ser. E isto aqui são os habitantes de Samsara. Que poderíeis esperar de melhor?”

(Ensinamento Budista)
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MensagemEnviada: Seg Mai 05, 2008 6:48 pm    Assunto: Responder com citação

Schopenhauer foi um apaixonado pela concepção budista de desapego...muitos o consideram apenas um filósofo da tristeza, porém existe muito mais. Me interessei muito por ele na época da Trilogia Matrix...os diretores eram fãs dele tanto que numa cena em Matrix Reload na biblioteca de Merovigian existe dois livros dele....é interessante que com isso descobri o final do filme antecipado...se tudo é aparência que é samsara que era Matrix...só restava se entregar ao nada..Neo iria "morrer".....não deu outra! Smile
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