Registrado: 08/07/07 Mensagens: 1800 Localização: Vitória da Conquista, Bahia
Enviada: Qui Nov 08, 2007 7:16 pm Assunto:
Todo mundo conhece a alegoria da caverna, de Platão, em linhas gerais. Mas achei por bem reproduzir abaixo a história tal como contada por Platão. Ela se encontra na obra "República", Livro VII, 514a-517c:
"Depois disto - prossegui eu - imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género dos tapumes que os homens dos "robertos" colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.
- Estou a ver - disse ele.
- Visiona também ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objectos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.
- Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas - observou ele.
- Semelhantes a nós - continuei -. Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projectadas pelo fogo na parede oposta da caverna?
- Como não - respondeu ele -, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?
- E os objectos transportados? Não se passa o mesmo com eles ?
- Sem dúvida.
- Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objectos reais, quando designavam o que viam?
- É forçoso.
- E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?
- Por Zeus, que sim!
- De qualquer modo - afirmei - pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objectos.
- É absolutamente forçoso - disse ele.
- Considera pois - continuei - o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objectos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objectos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objectos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objectos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?
- Muito mais - afirmou.
- Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objectos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?
- Seria assim - disse ele.
- E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol, não seria natural que ele se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objectos?
- Não poderia, de facto, pelo menos de repente.
- Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objectos, reflectidas na água, e, por último, para os próprios objectos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.
- Pois não!
- Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.
- Necessariamente.
- Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo.
- É evidente que depois chegaria a essas conclusões.
- E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?
- Com certeza.
- E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prémios para o que distinguisse com mais agudeza os objectos que passavam e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer - parece-te que ele teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo "servir junto de um homem pobre, como servo da gleba", e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo?
- Suponho que seria assim - respondeu - que ele sofreria tudo, de preferência a viver daquela maneira.
- Imagina ainda o seguinte - prossegui eu -. Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?
- Com certeza.
- E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista - e o tempo de se habituar não seria pouco - acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão ? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam ?
- Matariam, sem dúvida - confirmou ele.
- Meu caro Gláucon, este quadro - prossegui eu - deve agora aplicar-se a tudo quanto dissemos anteriormente, comparando o mundo visível através dos olhos à caverna da prisão, e a luz da fogueira que lá existia à força do Sol. Quanto à subida ao mundo superior e à visão do que lá se encontra, se a tomares como a ascensão da alma ao mundo inteligível, não iludirás a minha expectativa, já que é teu desejo conhecê-la. O Deus sabe se ela é verdadeira. Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível é que se avista, a custo, a ideia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e belo; que, no mundo visível, foi ela que criou a luz, da qual é senhora; e que, no mundo inteligível, é ela a senhora da verdade e da inteligência, e que é preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e pública.» _________________ "E comecei, a sós comigo, a fazer barcos de papel com a mentira que me haviam dado." - Bernardo Soares
Nada como uma pequena ajuda visual e bem-humorada!
Infelizmente existem ilusões muito maiores do que a TV! E tenho certeza de que a libertação das ilusões da Torre e do cristianismo não foram minhas ultimas conquistas em relação a percepção da realidade!
Registrado: 08/07/07 Mensagens: 1800 Localização: Vitória da Conquista, Bahia
Enviada: Sex Abr 04, 2008 9:22 am Assunto:
É incrível como essa alegoria do Platão se mantém atual. Estou trabalhando com ela atualmente com meus alunos do 1º ano do Ensino Médio, nas aulas de Filosofia. Gera muita, mas muita discussão mesmo.
Entretanto, há sempre o perigo do efeito casca de cebola. Quem garante que, ao sairmos de uma caverna, não entramos em outra, que pensamos ser, de fato, a realidade, quando não passa de uma nova caverna, ou ilusão? E se as cavernas forem tantas quantas as cascas de uma cebola, e, à medida que se descarta uma, surge uma nova? Isto duraria até o infinito? Voltaríamos para a caverna inicial, da qual nunca deveríamos ter saído? E se, no final das contas, como uma cebola que se tira casca a casca, não sobra mais nada? E se a realidade, enfim, fosse o conjunto das cascas de cebola, e não cada uma das cascas, isoladamente? Ou, em outras palavras: o conjunto de ilusões, e não cada uma delas, isoladamente? _________________ "E comecei, a sós comigo, a fazer barcos de papel com a mentira que me haviam dado." - Bernardo Soares
É incrível como essa alegoria do Platão se mantém atual. Estou trabalhando com ela atualmente com meus alunos do 1º ano do Ensino Médio, nas aulas de Filosofia. Gera muita, mas muita discussão mesmo.
Entretanto, há sempre o perigo do efeito casca de cebola. Quem garante que, ao sairmos de uma caverna, não entramos em outra, que pensamos ser, de fato, a realidade, quando não passa de uma nova caverna, ou ilusão? E se as cavernas forem tantas quantas as cascas de uma cebola, e, à medida que se descarta uma, surge uma nova? Isto duraria até o infinito? Voltaríamos para a caverna inicial, da qual nunca deveríamos ter saído? E se, no final das contas, como uma cebola que se tira casca a casca, não sobra mais nada? E se a realidade, enfim, fosse o conjunto das cascas de cebola, e não cada uma das cascas, isoladamente? Ou, em outras palavras: o conjunto de ilusões, e não cada uma delas, isoladamente?
Nestes casos, pelomentos teriamos uma resposta a pergunta.
E as viagens de uma caverna para outra maior (ou matrix) não teria sido em vão, mas com o proveito de se ter contemplado a todas elas...
A cada nova realidade, a cada nova caverna, uma nova emoção e um novo conhecimento, e a espectqativa de encontrar a próxima resposta, o indinito se tornaria pequeno para tantas descobertas... _________________ [b:4855e7a905]
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